Os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro sempre tiveram entre os seus temas preferidos fatos marcantes da história brasileira. Através da melodia de surdos, caixas e tamborins, as escolas deram vida aos momentos mais importantes desses pouco mais de 500 anos da nossa história.
“Já tive muita aula de História ouvindo Silas de Oliveira”, costumava dizer o sambista Nelson Sargento. E tem muita gente que leva isso a sério. É o caso do professor Antonio Henrique de Castilho Gomes. Graduado em Museologia pela UNI-Rio e em História pela UFF, Antonio também é mestre e doutorando em Literatura Brasileira pela PUC-Rio. Há muito tempo a relação entre os sambas-enredo e a história do Brasil é objeto de pesquisa do historiador.
Antonio Henrique acredita que os sambas-enredo que abordam fatos da nossa história podem ser utilizados como ferramenta pedagógica em sala de aula. “Sempre me utilizei de letras de sambas-enredo em minhas aulas. Os enredos históricos geralmente produzem sambas-enredo de qualidade e com informações relevantes à prática docente. É óbvio que todo recurso, e o samba-enredo não é diferente, deve ser anteriormente analisado pelo professor para que não haja dúvidas sobre a forma como ele deve ser utilizado em sala de aula. É um material rico e diverso, portanto, muito útil à prática docente”, destaca o professor.
O professor afirma ainda que, de vez em quando, utiliza os sambas-enredo de forma crítica. “Às vezes utilizo os sambas em minhas aulas para criticá-los, tais como “Exaltação a Tiradentes” (Império Serrano – 1949), por centrar nesta figura toda a Inconfidência Mineira, e “Cidade Maravilhosa – o sonho de Pereira Passos” (União da Ilha do Governador - 1997), por exaltar um projeto urbanístico passível de críticas sociais. Mas sempre que acho viável o uso dessa ferramenta”, ressalta.
Existem diversas formas de se trabalhar o conteúdo dos sambas-enredo em sala de aula. Além de ajudar nas aulas de História, esse recurso também pode ser trabalhado de forma interdisciplinar. “Quando os recursos técnicos me permitem, utilizo também vídeos com os desfiles de enredos históricos que, junto com os sambas-enredo, tornam as aulas mais atrativas, o que faz com que elas rendam mais. Gostaria de lembrar que não apenas a disciplina de História pode se utilizar desses recursos, eles são por si só interdisciplinares. Só para ilustrar, é possível dar uma excelente aula sobre modernismo partindo dos enredos “Paulicéia Desvairada” (Estácio de Sá - 1992) e “Macunaíma” (Portela - 1975)”, afirma o professor.
Outra forma de se trabalhar o samba-enredo em sala de aula é apresentando a música aos alunos e pedir que eles façam uma pesquisa sobre o período, sobre o fato histórico e tragam uma redação ou suas impressões sobre o tema para que ele possa ser debatido pela classe.
O que não falta é material. É só buscar o samba-enredo que mais se adapte ao período a ser estudado. Por exemplo: “Os Cinco Bailes da História do Rio” (Império Serrano – 1965) ajuda a analisar o período do Império; “Sublime Pergaminho” (Unidos de Lucas – 1968) serve para se debater a trajetória da princesa Isabel, da escravidão e das leis do Ventre Livre, do Sexagenário e Áurea; “O Grande Presidente” (Mangueira – 1956) fala sobre a vida do presidente Getúlio Vargas; “Aquarela Brasileira” (Império Serrano – 1964) discorre sobre a geografia brasileira, e por aí vai.
São inúmeras as composições que, direta ou indiretamente, estão ligadas a temas históricos, literários e culturais. Dentre elas, Antonio Henrique aponta algumas, como “Os Sertões” (Em Cima da Hora - 1976), “100 anos de liberdade, realidade ou ilusão” (Estação Primeira de Mangueira – 1988), “Paulicéia Desvairada” (Estácio - 1992), “Macunaíma” (Portela - 1975), “Kizomba, a festa da raça” (Unidos de Vila Isabel – 1988), “Liberdade, liberdade abre as asas sobre nós” (Imperatriz Leopoldinense – 1989) e Seis datas Magnas (Portela – 1953).
Essa prática de construir enredos em cima de fatos históricos está presente desde o início dos desfiles, principalmente porque naquela época os enredos obrigatoriamente deveriam versar sobre o Brasil. “Essa tradição começou em 1938, quando o nacionalismo fez Getúlio Vargas proibir letras que falassem de temas internacionais”, conta o médico e pesquisador de carnaval Hiram Araújo. Em 1939, a escola Vizinha Faladeira foi desclassificada ao descumprir a proibição e desfilar com o enredo “Branca de Neve e os Sete Anões”.
“Se pesquisarmos, podemos verificar que esta prática é muito antiga. Quando esta obrigatoriedade caiu, o número de sambas-enredo sobre história do Brasil diminuiu. Em contrapartida, apareceram os temas sobre história mundial e até sobre ciências, como é o caso de Trevas, Luz a explosão do universo (Unidos do Viradouro – 1997)”, afirma Antonio Henrique.
O mestre em Língua Portuguesa pela UERJ e pesquisador Julio Cesar Farias, autor do livro “Aprendendo português com samba-enredo”, também ressalta o poder dessa ferramenta na sala de aula. Segundo ele, a letra do samba-enredo abre possibilidades para o estudo dos aspectos semânticos, sintáticos e morfológicos que a caracterizam. No seu livro, Farias destaca que como o samba-enredo é composto sempre a partir de outro texto – a sinopse do enredo – ele proporciona ótimos exemplos para se trabalhar a questão da intertextualidade.
Nos últimos anos, os sambas-enredo não têm tratado tanto dos temas da nossa história ou do nosso dia-a-dia. Antonio Henrique explica os motivos para esse fenômeno: “Primeiro cabe ressaltar novamente que hoje não é mais obrigatório que os enredos falem de Brasil. Segundo, foi introduzido o enredo subjetivo, não que a subjetividade não existisse, mas hoje ela é muito mais utilizada. É claro que há ainda a questão comercial, porém mesmo os enredos históricos podem ser comerciais. É o que vemos claramente nos enredos que contam a história de determinados estados ou cidades, que são desenvolvidos a partir de “gordas” doações de prefeituras e governos estaduais, como, por exemplo, em “Linda eternamente Olinda” (Portela – 1997) e “Macapaba: equinócio solar, viagens fantásticas pelo meio do mundo” (Beija Flor – 2008).
Matéria tirada do site "Conexão Professor"
http://www.conexaoprofessor.rj.gov.br/temas-especiais-18.asp

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